‘Peraí, vamo pra um japa tomar aguardente?’: frase tem 5 palavras ‘criadas’ pela economia linguística; entenda

O que é economia linguistica, que cria novas palavras que minimizam esforço na comunicação
Você deve estar acostumado a (ao menos tentar) economizar dinheiro. Economizar tempo. Economizar energia. Economizar bateria do celular. E saiba que, mesmo sem perceber, também economiza fonemas [menores unidades sonoras que formam as palavras].
➡️Quem prova isso é a teoria chamada “economia linguística”, um princípio fundamental de todos os idiomas que faz com que os falantes minimizem o esforço gasto na comunicação e tentem achar a medida ideal entre “se poupar” e “transmitir a mensagem com clareza”.
Esse conceito foi amplamente difundido pelo linguista francês André Martinet (1908-1999). Segundo ele, a língua está em um estado de equilíbrio constante entre duas forças opostas:
as necessidades de comunicação: a exigência de ser claro e preciso na comunicação de uma mensagem;
a “lei do menor esforço”: a tendência biológica e psicológica de economizar energia física (articulação muscular) e mental (memória e processamento).
A frase do título desta reportagem, “Peraí, vamo pra um japa tomar aguardente?”, traz cinco palavras influenciadas pela economia linguística:
peraí = contração de “espera aí”
vamo = vamos sem o “s” final
pra = para com a supressão da primeira vogal
japa = abreviação de “japonês”, especialmente “restaurante japonês”
aguardente = mistura já consagrada das palavras “água” e “ardente”, para se referir a um tipo de bebida alcoólica (no contexto asiático daqui, seria um shochu ou um umeshu, por exemplo).
A evolução do mundo digital, com digitação frequente de mensagens, acelerou esses processos de “economia”, explicam os especialistas entrevistados.
“Não há por que falar em empobrecimento da língua neste caso. Todos os idiomas têm processos de simplificação vocabular, cada um com suas características gramaticais”, afirma Ricardo Cavaliere, filólogo e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL).
No espanhol, por exemplo, o adjetivo “grande”, que significa algo ou alguém notável, perde a última vogal quando está diante de um substantivo no singular. Vira “gran”. No inglês, “want to” (querer) pode virar “wanna”, dependendo do contexto.
“A língua muda e se adapta, para que ocorra uma interação com eficiência, praticidade e rapidez”, explica Marcelo Módolo, linguista e professor da Universidade de São Paulo (USP).
Quais os tipos de ‘encurtamento’ de palavra?
Falante tende a economizar energia na comunicação, desde que mensagem seja transmitida com clareza
Reprodução/Freepik
Há diversos fenômenos de “encurtamento de palavras” que se encaixam no fenômeno de economia linguística. Os nomes de alguns podem até ser mais difíceis, mas todos descrevem o que você certamente pratica todos os dias, mesmo sem querer, falando ou digitando. Veja abaixo:
📝Gírias: peraí (espera aí), tô (estou)
📝Siglas: IBGE, ONU, Enem, PIX
📝Abreviações de internet: pq (porque), tbm (também), vc (você)
📝Aférese: supressão de fonemas no começo da palavra: pera (espera), fone (telefone)
📝Síncope: corte de um fonema no meio da palavra, como nos exemplos coloquiais de “xícara – xicra”, “abóbora – abóbra” e “para – pra”
📝Apócope: corte do fonema no final da palavra: refri (refrigerante), cine (cinema), japa (japonês). Curiosidade: mar, antes da evolução do latim para o português, era mare.
📝Aglutinação: união de duas ou mais palavras: planalto (plano + alto), aguardente (água + ardente), fidalgo (filho de algo — de uma família ou de alguém importante), embora (em + boa + hora)
É claro que, se alguém, por conta própria, decidir criar uma sigla, pode comprometer a comunicação, como explica Cavaliere.
“Se usada em excesso e, sobretudo, sem critério, a redução vocabular pode prejudicar a comunicação. Percebemos este fato em certas placas de trânsito com abreviaturas feitas por iniciativa particular de quem as redigiu”, diz.
“Já vi uma placa de trânsito no Rio de Janeiro que indicava ‘F Tijuca’, ou seja, ‘Floresta da Tijuca’. Ocorre que F não é abreviação autorizada de ‘Floresta’. Neste caso, quem não vive no Rio certamente não entenderá a indicação.”Fonte: Read More













