Como Bad Bunny furou a bolha e virou o artista internacional mais ouvido no streaming no Brasil

Bad Bunny segura a bandeira de Porto Rico no Super Bowl
Getty Images/via BBC
No rastro de uma apresentação histórica no Super Bowl e de shows em São Paulo na sexta-feira (20) e no sábado (21), Bad Bunny vem surfando uma onda de popularidade inédita e repentina no Brasil.
O porto-riquenho, que nunca havia figurado entre os 50 cantores mais tocados do Spotify no país desde que começou a cantar, há quase uma década, agora frequenta o topo do serviço de streaming de música mais popular entre brasileiros.
Na semana que sucedeu a final da National Football League (NFL), principal liga de futebol americano, ele chegou à 12ª posição. Nesta semana, caiu para a 24ª. Mas em ambas foi o estrangeiro mais tocado do país, atrás apenas de estrelas do funk e do sertanejo.
No YouTube, outra das principais plataformas de consumo musical no Brasil, ele também é o artista internacional mais popular do momento, ocupando a 76ª colocação na lista dos mais ouvidos.
Em um mercado competitivo como o do Brasil, o país que mais ouve sua própria música no mundo, este é um feito não apenas para ele, mas para qualquer artista internacional.
O exemplo de Taylor Swift ilustra bem isso. Apesar de ser a estrangeira mais bem posicionada no ranking desta semana depois de Bad Bunny, ela ficou apenas na 59ª colocação.
DtMF, a principal faixa do celebrado álbum Debí Tirar Más Fotos, do porto-riquenho, ocupou o 14º lugar no Spotify na semana passada, muito à frente da segunda música estrangeira mais tocada — The Fate of Ophelia, de Swift, com o 66º. Ambas acabaram de cair, mas continuam na liderança entre os gringos.
Mas esse sucesso recente de Bad Bunny pode estar mais relacionado à sua performance no Super Bowl do que à sua música, impulsionada pela televisão e a internet, que levaram os brasileiros a se encantarem pelos símbolos latinos que o artista propagou na apresentação. É o que dizem especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.
A vitrine da Globo e da internet
O show de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl durou menos de 15 minutos, mas repercutiu para muito além do campo de futebol nos arredores de Los Angeles.
Embora seja uma tradição nos Estados Unidos há décadas, esta foi a primeira vez em que a apresentação foi transmitida no Brasil pela televisão aberta. A Globo exibiu, depois do Big Brother Brasil (BBB), os melhores trechos do show e da partida em si. O concerto na íntegra foi exibido no Multishow, e o jogo, no SporTV.
Somando todas as suas plataformas, que incluem ainda o GE TV, na internet, a Globo atingiu 12,9 milhões de pessoas com a cobertura do evento.
Foi um canhão de audiência não só na televisão, mas também na internet, onde trechos da apresentação foram reproduzidos milhões de vezes no país, diz Breno Soutto, diretor de análises do Buzzmonitor, uma multinacional especializada na coleta e na avaliação de dados de redes sociais.
O nome do cantor apareceu em 218,5 mil publicações na segunda-feira após o Super Bowl, muito menos do que a média de 2025, de 486 menções diárias.
Ao longo da semana, ele foi ainda o terceiro assunto mais comentado na rede social X, atrás — por pouco — de campanhas dos internautas contra dois participantes emparedados do BBB.
No Instagram, a apresentação viralizou como um todo, mas um trecho em específico chamou atenção: aquele em que o cantor pede que “Deus abençoe a América” — mas não apenas os Estados Unidos, país que em inglês se autodenomina “America”, e sim as dezenas de territórios que compõem o continente.
O post mais bem-sucedido entre os perfis brasileiros que compartilharam esse clipe teve 5,7 milhões de visualizações, 754 mil curtidas, 50,7 mil compartilhamentos e 3,4 mil comentários, segundo o Buzzmonitor.
Orgulho latino
Por que shows do Bad Bunny no Brasil serão históricos
Embora pesquisas como a do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) apontem que apenas 4% da população brasileira se reconhece como latino-americana, o sentimento de união entre latinos, impulsionado pelo enfrentamento ao presidente americano, Donald Trump, foi o principal fator que despertou esse engajamento.
Esta é a avaliação de Rafael Noleto, doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ele vem se especializando no estudo dos entroncamentos entre o Brasil e os demais territórios latino-americanos, principalmente no que diz respeito à cultura.
Trump, acrescenta o antropólogo, tem atacado sistematicamente a América Latina, tendo inclusive já citado a ideia de reativar a chamada Doutrina Monroe, que ampliou intervenções políticas, militares e econômicas contra países da América Latina, levando a região a ser conhecida como o “quintal dos Estados Unidos”.
Sua visão encontra respaldo nas análises do Buzzmonitor, segundo as quais a maior parte das menções a Bad Bunny nas redes sociais (75,93%) esteve associada a sentimentos positivos, enquanto 15,25% foram negativas. Outras 8,82% foram classificadas como neutras.
“Nunca terá um banco com 75% de posts positivos. Será o contrário”, diz Soutto. “Mas mesmo questões culturais, como Carnaval, vai ter gente dizendo que é legal, mas mais gente dizendo que, se o brasileiro protestasse o quanto ele faz festa, o país estaria melhor. Ninguém vai à internet para falar bem de nada.”
Soutto amplia o exemplo ao citar outros artistas, como Taylor Swift, figura de porte semelhante ao de Bad Bunny. No Brasil, as publicações que mencionam o nome da cantora registram, em média, 22,56% de manifestações negativas e 23,36% de avaliações neutras — percentuais que reduzem a fatia de positivas para 54,36%.
A análise não é feita apenas com base em palavras-chave associadas à positividade, negatividade ou neutralidade, mas por meio de um programa de inteligência artificial capaz de identificar aspectos contextuais, como a ironia, de acordo com Soutto.
“Com Bad Bunny após o Super Bowl foi um engajamento passional, uma coisa meio Copa do Mundo, com o povo doido gritando: é — também — do Brasil!”, diz o executivo.
A capa do disco Debí Tirar Más Fotos, de Bad Bunny
Divulgação
Fale bem ou fale mal, mas fale de mim
A parcela de brasileiros que reprova o cantor nas redes sociais é de 15,25%, segundo o Buzzmonitor. Embora seja minoritária, precisa ser considerada.
As publicações mais bem-sucedidas contra o porto-riquenho após o Super Bowl vieram de contas ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), segundo a agência. O post mais popular foi feito por Eduardo Bolsonaro no Instagram, com 181,4 mil curtidas.
Segundo o ex-deputado, o artista teria se aproveitado do Super Bowl “para fazer protesto contra Donald Trump e o ICE”, citando a agência responsável pela fiscalização de imigração nos Estados Unidos, especialmente a ilegal. “Além de inapropriado, uma lacração que ninguém suporta mais”, acrescentou o político.
Para Rafael Noleto, essa parcela de brasileiros que Eduardo Bolsonaro representou espelha, de certa forma, o racha político que atravessa o Brasil em qualquer pauta.
“Isso reflete uma postura acrítica de certa parcela da população brasileira em relação aos Estados Unidos, enquanto Bad Bunny traz uma crítica frontal a este país. Se brasileiro fosse, ele também faria críticas a determinados pontos de vista da direita e da extrema direita no Brasil”, diz o antropólogo.
Fato é que fazer críticas negativas na internet rende engajamento, acrescenta Soutto, do Buzzmonitor, de forma que mesmo os ataques podem ter levado a uma busca por Bad Bunny para saber quem é ele e o que ele canta.
Pico momentâneo ou fenômeno duradouro?
A pergunta que fica é se, após deixar o Brasil, Bad Bunny continuará bem-sucedido nas paradas musicais do país.
É uma questão difícil de responder, já que há fatores imprevisíveis — como uma eventual parceria com um artista brasileiro, capaz de impulsioná-lo novamente.
O porto-riquenho afirmou que não faria um dueto antes de conhecer melhor os músicos do país e sentir um desejo genuíno de colaboração. Após a visita, esse cenário pode mudar.
No entanto, desconsiderando essas variáveis, os analistas ouvidos pela reportagem avaliam que a tendência é de queda.
O recuo já aparece nos rankings do Spotify, com a passagem da 12ª para a 24ª posição na última semana, e também no volume de menções nas redes, que despencaram de 218,5 mil na segunda-feira retrasada para 62,5 mil na terça, 24 mil na quarta e assim por diante.
Ainda assim, a conexão de sua obra com o Brasil é inegável. Isso não apenas pelas questões políticas e sociais compartilhadas entre porto-riquenhos e brasileiros, mas também pela sua sonoridade — que remete a uma mesma matriz africana cheia de semelhanças com a música produzida no país — e por elementos visuais que atravessam sua carreira.
Um exemplo é a capa do álbum DtMF, com cadeiras de plástico diante de bananeiras — símbolos recorrentes em festas e botecos de diversos países da América Latina.
“Temos idiomas diferentes, mas nossos universos conversam: todos sofremos processos de colonização e todos somos alvos do imperialismo dos Estados Unidos. Essas afinidades, quando acionadas pelo Bad Bunny, nos tocam muito, porque elas nos lembram de quem somos”, diz Noleto.Fonte: Read More













