R$ 125 mil em 72 horas x ameaças e ‘cancelamentos’: os bastidores das vaquinhas de alunos de medicina para bancar curso

Desespero, corrente do bem e ameaças: os bastidores das vaquinhas para alunos de medicina
“Eu pensei bastante antes de começar essa vaquinha, porque não queria ficar pedindo dinheiro para as pessoas. Vergonha… mas não sobrou nenhuma outra opção.”
Esse é um trecho do apelo que o estudante de medicina Leonardo Reis, de Porto Alegre, postou nas redes sociais, em um vídeo pouco produzido, basicamente sem edição, que passou de 8 milhões de visualizações no TikTok.
No depoimento de menos de 3 minutos, o jovem pede auxílio financeiro para se rematricular no último ano da graduação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Ele não precisou esperar nem 3 dias para arrecadar R$ 125 mil e garantir que conseguiria arcar com as mensalidades até a formatura.
➡️Nas redes sociais, há dezenas de vídeos em que alunos de medicina divulgam vaquinhas e falam do desespero de não terem mais dinheiro para a reta final da faculdade. O rumo que essa exposição da própria história de vida pode tomar, no entanto, é imprevisível. Nos bastidores, como você verá nesta reportagem, ocorrem:
correntes do bem e mensagens de apoio;
perda de privacidade;
ameaças e “cancelamento”;
caça a contradições nas escolhas de vida do aluno;
sensação de vigilância constante;
autocobrança.
Thaís Ferreira, de 34 anos, por exemplo, teve seu passado recente revirado por quem não acreditou que ela realmente necessitaria de doações para se formar. Ela já era nutricionista e queria fazer uma segunda graduação, em medicina. Para isso, contou com a ajuda da mãe (que esgotou a própria reserva financeira), da tia e dos avós.
Nos comentários, a relação dela com a família foi objeto de discussão e de críticas.
“Estar na internet é se colocar num espaço em que se está sujeito ao cancelamento. É um cálculo pessoal: tem pessoas que vão tolerar críticas, outras que não têm estofo emocional para aguentar”, afirma o professor de Direito Filipe Medon, da FGV-Rio.
“A palavra de ordem sempre é: pense antes de postar, pois o direito ao esquecimento [para quem se arrepende] não é exercido na prática”, diz ele, que também é pesquisador da “cultura do cancelamento”.
Observação: No Brasil, os cursos de medicina são os mais concorridos na rede pública. Mesmo com o avanço recente da política de cotas sociais, alunos que não receberam uma educação básica de qualidade passam anos no cursinho, mas nem sempre são aprovados em universidades como USP e Unicamp. No ensino privado, com mensalidades que chegam a R$ 15 mil, programas de acesso como Fies e Prouni têm alcance limitado.
📢Correntes do bem e mensagens de apoio
Leonardo está no último ano da graduação em medicina. Só conseguiu se rematricular após receber doações em vaquinha
Arquivo pessoal
Por que tanta gente decide ajudar? Para Leonardo Reis, a causa de “quero me formar em medicina e falta pouco” é vista com sensibilidade. Em geral, as pessoas associam essa carreira a uma oportunidade válida de ascensão social. Quando veem que um jovem está prestes a alcançar esse objetivo, querem incentivá-lo e fazem um PIX — mesmo que de R$ 5 ou R$ 10.
No caso de Léo, a mobilização começou entre pessoas próximas: familiares, colegas, professores e conhecidos da região de Porto Alegre ajudaram a levantar cerca de R$ 20 mil antes mesmo de o vídeo dele viralizar.
Depois que o apelo ganhou força no TikTok, a arrecadação disparou. Em cerca de 72 horas, somando vaquinha e depósitos feitos diretamente em sua conta, ele já havia conseguido quase R$ 120 mil — valor suficiente para dar uma entrada de R$ 80 mil e garantir a rematrícula no último ano de medicina.
Leonardo diz ter ficado impactado pela quantidade de mensagens recebidas.
“É muito incrível, sabe? Na primeira noite, eu não conseguia dormir. O que mais o marcou foram as manifestações de carinho de desconhecidos que acompanharam a história como se fosse de alguém próximo. As pessoas falavam: ‘eu estava torcendo muito por ti’”, diz.
Já Thaís Ferreira percebeu que havia uma “corrente do bem” quando, ao começar a vender brigadeiros, conseguiu levantar R$ 25 mil.
Como os vídeos viralizaram, seguidores passaram a sugerir que ela abrisse uma vaquinha para que pessoas de outras cidades também pudessem ajudar. Ela então arrecadou mais R$ 34 mil entre doações pela plataforma e transferências para a conta pessoal, atingindo os R$ 59 mil que a faculdade exigia para fechar um acordo e liberar a matrícula.
📲Perda de privacidade
Thaís conseguiu se formar em medicina após arrecadar dinheiro em vaquinha
Arquivo pessoal
Para convencer o público sobre a necessidade de ajuda, inevitavelmente o estudante expõe algum detalhe de sua vida pessoal: crises financeiras na família, dívidas assumidas, momentos de desespero e de fragilidade…
São histórias que passam a ser interpretadas e potencialmente julgadas por milhares de pessoas.
Exemplo: internautas passaram a vasculhar publicações antigas de Thaís, em busca de evidências de que ela não precisaria de ajuda financeira.
“O pessoal falava: ‘ela foi pra Disney em 2018’”, relata a jovem.
A viagem, segundo ela, aconteceu antes de a faculdade começar. “Eu nem pensava em fazer medicina. Fiz o vestibular em 2019 e comecei em 2020.”
Vieram também outros questionamentos: por que ela não vendeu o próprio carro, em vez de abrir vaquinha? Como conseguiu um ingresso para um camarote no Carnaval? Ela não tem vergonha de deixar a família inteira endividada, e ainda assim pagar por uma festa de formatura?
“Acho que só em 2 dias que eu fiquei abalada, mas foi porque estavam fazendo comentários sobre a minha família. Mas quem quisesse falar sobre mim podia falar. E a minha mãe amava, porque quanto mais falavam, mais viralizava, mais dava engajamento”, diz Thaís.
Ameaças e “cancelamento”
Dos milhares de comentários que Leonardo recebeu, nem cinco eram negativos. Só questionavam, por exemplo, por que o aluno não havia optado por uma universidade pública.
“Eu expliquei nos vídeos: fiz quatro anos de cursinho e não consegui. Minha renda não era baixa o suficiente para ter acesso ao Prouni, nem alta o suficiente para pagar as mensalidades. E basicamente não tinha universidade com Fies”, afirma.
Thaís viveu uma experiência mais violenta: até sua família foi ameaçada. Seguidores da jovem não apoiaram o fato de ela ter usado todas as economias da mãe e da tia para pagar a faculdade.
“Era meu sonho, e minha família sempre foi muito unida. Mas teve gente me mandando mensagem como ‘tomara que você e todos eles morram ou precisem desse dinheiro’”, conta.
Dezenas de outros vídeos foram postados por terceiros, expondo possíveis contradições na vida de Thaís.
Para o professor Medon, da FGV, a responsabilização civil nesses casos “não tem resposta prévia” e deve ser analisada “caso a caso”.
“A questão jurídica é: o fato de criar um perfil ou um conteúdo para cancelar uma pessoa gera dever de indenização? Sou responsável civilmente por isso?”, diz.
Segundo ele, a discussão fica entre a liberdade de expressão (o direito de alguém discordar de outra pessoa e expor sua opinião) e a falta de respeito.
“O intuito foi de ‘cancelar’ ou só de informar um fato para que as pessoas o conheçam? O tom que adota importa”, afirma o especialista. Na avaliação dele, publicações com “adjetivos fortes”, sobretudo se gerarem “monetização por meio do incentivo ao ódio”, podem indicar abuso.
👀Vigilância constante
Leonardo conta que, logo depois da campanha, começou a se policiar em situações banais.
“Eu tinha medo de alguém me ver saindo de um Uber e pensar: ‘ah, ele tá usando o dinheiro da vaquinha pra isso!”
O mesmo raciocínio se repetia em momentos simples, como sair com amigos. “Se eu fosse ao shopping, se eu fosse ao cinema, eu pensava: ‘meu Deus, e se alguém achar que estou usando as doações para comprar o ingresso? ’”
Qualquer cena do cotidiano poderia ser tirada do contexto e interpretada como sinal de desvio, exagero ou incoerência.
Thaís também passou a medir a própria exposição. Depois de conseguir a rematrícula, optou por reduzir drasticamente a presença nas redes para focar na reta final da graduação.
🩺Autocobrança
Se, de um lado, a vaquinha afasta o risco imediato de abandonar o curso, de outro ela pode criar um novo tipo de peso: a sensação de que agora é preciso corresponder à confiança depositada por milhares de pessoas.
Com Leonardo, essa cobrança apareceu de imediato: “Eu tenho que ser o melhor médico possível”, passou a pensar, especialmente após o sucesso da campanha.
A ajuda recebida não virou uma sensação de dívida no sentido negativo, segundo ele, mas de responsabilidade. “As pessoas acreditaram em mim. Não quero nem chegar atrasado [à aula]”, afirma.
Com Thaís, a autocobrança vem acompanhada de uma conta que ainda está longe de ser paga. Embora tenha conseguido concluir a graduação em 2025, ela diz que ainda deve à faculdade, a familiares e a um amigo que ajudou na rematrícula final. Somando tudo, estima uma quantia de aproximadamente R$ 300 mil.
Atualmente, ela trabalha em plantões e em uma unidade básica de saúde. “A cabeça pira”, diz. “Mas vejo que tenho feito a diferença no meu trabalho, então eu não me arrependo de jeito nenhum de ter usado desse recurso.”Fonte: Read More














